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Texto da Curadoria de Ricardo V.Barradas - 2008.
A maior exposição do artista Oswaldo Goeldi,já realizada no
Brasil.
GOELDI NA BM&F: ARTE EM BRANCO E PRETO
A vida
não responde imediatamente as nossas complicadas
expectativas. Por conta disso, certos eleitos, por ela mesma
escolhidos de forma singular, seguem seus caminhos oblíquos
e solitários, em uma continuidade criativa pulsante entre o
torturante gemido solitário dentro dos abismos sombrios de
nossa malfadada alma e a morna euforia escarnecida das
palavras, não-ditas, mal ditas, em dúvida de si mesmo. Eu
sou carioca de nascimento e, desde a infância, me sentia
opaco, pela contemplação cotidiana das belezas naturais da
cidade do Rio de Janeiro, a qualquer canto um novo olhar, de
uma irretocável harmonia atlântica entre o céu, a mata e o
mar. Aos treze anos, mudei-me com minha família, para a
Amazônia. E por conta disso, chego bem próximo da
compreensão exata do que tem ocorrido, com todo aquele
nascido no Rio de Janeiro, e que seja remarcado a fogo pelo
exuberante e incandescente sol equatorial, na grande mãe
incontestável, senhora de todas as cores, sons e sabores
florestais tropicais. Essa minha experiência pessoal deve
ter sido bem parecida com a do grande mestre Goeldi que,
quando na infância, se deslumbrou com as diversidades
pungentes da Amazônia, pelas portas do Estado do Pará.
Oswaldo Goeldi é nosso verdadeiro expressionista e nosso
verdadeiro modernista. O único artista modernista coerente
em sua personalíssima produção autônoma e solitária, bem
longe das regras poéticas modernistas centradas no conteúdo,
e sem a menor preocupação com as tendências oficiais da arte
brasileira, do modismo e do mercado de arte, como um todo.
Acredito que por conta desse comportamento, tenha sido mais
fácil o primeiro reconhecimento de genialidade de sua
valorosa obra, por diversos artistas literários de gêneros
diversos.
Goeldi
com sua arte estava muito além de seu tempo. E por conta de
sua incontestável personalidade autônoma criativa, não foi
bem recebido pela crítica especializada na arte, como também
pelos outros artistas contemporâneos.
Mas a
continuidade se faz necessária, mesmo quando temos
externamente tão poucos estímulos incentivadores para isso.
Parece que a estrada da personalidade forte reserva um
caminho sombrio e solitário, para seus filhos mais queridos.
Sendo
assim, a arte de Goeldi impressiona, desde o início, o menos
letrado espectador, pela profundidade das questões sociais
modernas que apresenta. Os elementos vivos de seus desenhos
e gravuras estacam-se e vagueiam vagarosamente pelas
superfícies negras e brancas, sem terem para onde ir. E os
elementos mortos, imóveis e paisagísticos, assumem um papel
metafísico, de lugar nenhum, becos, esquinas, vielas comuns,
que podem ser de qualquer grande metrópole do mundo. Os
elementos vivos e os elementos mortos trocam de papéis. A
realidade sombria e cotidianamente opressora chega a assumir
um papel inimaginavelmente mágico e importante. Da mesma
forma que os elementos marginais de suas figuras. São eles
bêbados, ambulantes, trabalhadores braçais, prostitutas,
pescadores artesanais, que pouco a pouco assumem um papel
definitivamente emblemático dentro de todos os processos
criativos na obra do artista.
Acredita-se supostamente que o preto seja a inclusão de
todas as cores, e que o branco seja a ausência e a exclusão
de cada uma delas. Mas na arte de Goeldi, o preto e o branco
assumem uma nova realidade em papéis distintos. O negro
passa a ser o pano de fundo das palavras não-ditas, dos
elementos mudos, dos muros descascados, da calçada escura,
do canto imundo, que nos ensurdecem e o alvo passa ser o
sopro da própria vida, a verdadeira luz, que anima todas as
coisas que se movem, que nos entorpece no sentido inverso
das falsidades.
Goeldi
nos lembra em muitos momentos, em um convite constante, por
sua obra, que as falsas modéstias, as vaidades, as
arrogâncias burras e teimosas, o sermos importantes e
privilegiados pouco nos valem verdadeiramente.
Pois a
morte, futuro certo de cada um, iguala a todos a qualquer
modo e não há quem, nascido algum dia, que dela escape.
Mas
para Goeldi, a morte não é o fim somente, aparece como
alicerce vivo e presente em todos os passos de nossas
íntimas continuidades e conflitos diários.
Goeldi
passou dos 6 aos 24 anos na Suíça. Viu de perto os horrores
da guerra, das perdas, da fome, da solidão, elementos que
marcaram definitivamente e profundamente a alma do artista.
Nessa mesma época, na Europa, entra em contato com uma
produção artística que o marcaria para sempre, a do artista
austríaco Alfred Kubin (1877–1959), uma importância ímpar
que, até hoje, nenhum trabalho crítico definiu a exata
dimensão. É como se um fosse a contra face do outro, no
encontro de um mesmo caminho.
Por
esses encontros e achados, um na obra do outro, Goeldi e
Kubin corresponderam-se constantemente de 1926 a 1951.
Acredito que existem certos e determinantes fatos, pessoas e
personagens, que, vez por outra, redirecionam e norteiam ao
mesmo tempo nossas caminhadas pessoais. Tanto como foi o
encontro com Alfred Kubim, foi também com Hermann Kümmerly.
Tiveram, cada um deles, uma importância norteadora dentro da
emblemática carreira artística de Goeldi.
A vida
se repete, em formas semelhantes, e em momentos desiguais, e
reserva-nos surpresas dignificantes ao longo de nosso
caminho. Assim também foi comigo neste encontro, quase que
por acaso, com Lani Goeldi, sobrinha do artista.
A
agulha imantada do encontro marcado, mais uma vez, cumpre
seu papel enigmático.
Mas
voltando ao grande mestre Goeldi.
No
período que esteve na Europa, Goeldi limitou-se aos desenhos
e à litogravura. Só em 1923, já no Brasil, é que passa a se
interessar pela xilogravura.
A
partir desse mágico momento de complexidade mútua, criador e
criatura constroem um universo metafísico próprio da
criação.
Evoco
o termo latino creatore, sem a menor preocupação de
blasfêmia literária contra a magna criação. Pois só para
Oswaldo Goeldi, “entre os homens nascidos de mulher”, posso
facultar esta comparação divina. Daquele que cria
divinamente a partir do nada, e não tão-somente transforma.
Ao contrário de muitos, que não fizeram nada mais do que uma
releitura do que já existia, Goeldi veio com um universo
totalmente novo, magistralmente criado, e perpetuado ao
longo de sua vasta obra. A gênesis na verdadeira arte se
repete: como o homem veio do barro, o mundo mágico de Goeldi
veio a partir do comum pedaço de madeira.
E por
meio da mais popular das técnicas de expressão artística, a
xilogravura, tão presente nos livretos da literatura de
cordel, expostos entre os anônimos ambulantes, nas
incontáveis feiras livres de todos os nossos “brasis”, vem a
expressão máxima de sua arte.
Perpetuando-se mais uma vez que o feito magistral, não
necessita do mais precioso para ser executado.
O
grande mestre faz a xilografia assumir um caráter
essencialmente expressionista, moderno e erudito.
Goeldi, em goivagens precisas na confecção da matriz, inicia
a ressurreição de luz e força, arranca a cada movimento, do
tosco pedaço de madeira, a própria vida. Em uma
engenhosidade complicadíssima de colorir com várias cores a
gravura no suporte orgânico, revela ao espectador um mundo
mágico, totalmente vivo, com uma matriz personalíssima de
criador.
Consegue Goeldi, no desenho a lápis, no carvão e no nanquim,
a mesma expressividade encontrada nas gravuras magistrais.
Como um verdadeiro maestro, não privilegia qualquer
instrumento: rege qualquer um deles, com o único objetivo de
chegar bem próximo da perfeição. Assim, nas mais diferentes
técnicas de expressão artística, consegue redimensionar a
importância do branco e do preto, do claro e do escuro, da
vida e da morte, do comum e do eleito, convidar o espectador
solitário, um a um, olho a olho, perante qualquer uma de
suas obras, encontrar parte das respostas contidas em todos
sombrios abismos pessoais de cada um, e por conta deste
feito, sempre ser celebrado.
E as
gerações que hão de vir verão, verdadeiramente, Oswaldo
Goeldi como o maior artista moderno brasileiro.
Projeto Goeldi |